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segunda-feira, 27 de junho de 2011

9#

Ela entrou no centro de animais, com o cabelo atado, deixando os caracóis castanhos-escuros caírem sobre os seus ombros nus; os olhares dirigiram-se para ela, saudando-a. 
- O Pedro quer falar contigo. - Declarou Tânia, ao passar por ela.
Inês suspirou, desiludida; tinha esperança que a Margarida não fosse questionar as decisões do Doutor. De qualquer maneira, ela não se queixara - não a podiam acusar de se ter andado a lamuriar pelos cantos acerca das tarefas do dia vinte e quatro. 
Bateu à porta, receosa. Mas ninguém respondeu, pelo que decidiu entrar, devagarinho; o Doutor estava embrenhado nos seus papéis, mas assim que se apercebeu duma segunda presença no seu escritório, levantou o olhar, encarando-a, com uma expressão neutra.
- Podes sentar-te. - Disse ele, fazendo sinal para Inês se aproximar.
Ela avançou, hesitante, a pensar no que haveria de dizer. No entanto, assim que se sentou, ao encarar o Doutor perdeu toda a coragem.
- Inês, não me aproveitei de ti, pois não? - Perguntou, referindo-se ao dia vinte e quatro.
- Não, Doutor. Acho que - parou para escolher as palavras certas - foi um voto de confiança. Só não percebo por que é que me escolheu a mim, quando sabia que eu só vinha fazer três horas. - Acrescentou.
O Doutor encarou-a sério; no entanto, rapidamente se formou um sorriso tímido no seu rosto. Afagou os cabelos embaraçado, antes de lhe contar a verdade.
- Queria que soubesses onde me encontrar. - Murmurou, baixando o olhar.
Inês não foi capaz de lhe responder; engoliu em seco, envergonhada. Não conseguia acreditar no que tinha acabado de acontecer. De qualquer maneira, o Doutor não deixou passar muito tempo - aquele silêncio era demasiado constrangedor.
- Peço desculpa, Doutor. Talvez eu lhe tenha dado a entender - não acabou a frase por saber que não tinha feito nada de mal. - É melhor fingirmos que esta conversa nunca existiu.
- Ou podemos agir como dois adultos. - Sugeriu o Doutor, sentando-se na secretária. -  E acabar a conversa.
- Mas não somos dois adultos. - Contrapôs Inês, enrubescendo.
O Doutor corou, envergonhado, afastando-se dela e, escondendo-se atrás da secretária, novamente; tossiu para clarear a voz, antes de prosseguir, arrependido.
- Desculpa, Inês. - Pediu, sincero. - Não sei onde estava com a cabeça. Tens toda a razão. Perdoa-me, está bem?
- Posso fazer uma pausa?
- Claro. Demora o tempo que quiseres. - Assentiu o Doutor.
Inês saiu do escritório num ápice, com as faces rosadas e, o coração a palpitar freneticamente; sentia-se quente por debaixo do fato-de-treino. Pegou na sua mala, com o intuito de ir ao café.
- Onde vais, Inês? - Perguntou Lucas, atravessando-se no seu caminho.
- Comprar cigarros. - Respondeu, impaciente.
- Espera. - Pediu Lucas, dirigindo-se até à sua mochila. 
- Vens comigo?
- Não. Mas compra-me um Marlboro. - Lucas entregou-lhe o dinheiro.
- Está bem. - Retorquiu Inês, assentindo com a cabeça. - Não demoro muito.
- Estás em pausa? - Questionou Guida, com um esgar.
- Já volto. - Repetiu Inês, antes de sair.

8#

Não tenho falado com nenhum dos meus amigos - se é que ainda o são - sem ser com a Mariana e o pessoal do voluntariado. Por falar em voluntariado, o dia 24, em que só fui fazer três horas foi bastante estranho. Primeiro, o Doutor não foi, por isso ficámos por nossa conta, embora lá estivesse a Tânia, que é quem comanda as tropas quando o Doutor não está lá. Supostamente, o Pedro, como toda a gente lhe chama - menos eu - foi a Barcelona tratar de negócios. Deve voltar hoje, pelo que eu daqui a uma hora já o vou ver. Mas voltando ao dia 24, apesar do Doutor não lá estar, deixou um papel para mim com as tarefas que queria que eu desempenhasse, o que foi deveras estranho - coisa que as minhas colegas comentaram, infelizmente. Então, fiquei encarregue da limpeza do Sergey, um pastor alemão enorme, mas suficientemente sossegado para eu não fazer a mesma asneira que fiz com o Caramelo. Tive ainda que organizar uns papéis, pelo que estive dentro do escritório dele. Bem, devo dizer que aquilo é um luxo, mas que o Doutor não é nada organizado. Para finalizar, porque, supostamente, só lá devia ter ficado três horas, tive que esperar por umas encomendas para o Doutor e tive que as deixar com a vizinha dele, pelo que me foi dado a morada do Doutor: vive num apartamento. Não entrei lá dentro, como é óbvio. Deixei as encomendas com a vizinha: uma senhora odiosa, que me fez um interrogatório de quase meia hora. Perguntou-me se eu era irmã do Doutor ou filha, mas eu disse-lhe que não e que também não tinha idade para ser filha dele - bem, não queiram saber a cara que a mulher me fez. Bom, foi uma hora e meia a mais que fiz. Não me vou queixar ao Doutor, mas não percebi por que é que ele não pediu a outra pessoa para fazer de assistente pessoal dele, tendo em conta que sabia que eu só ia fazer três horas naquele dia. De qualquer maneira, qualquer pessoa vai fazer a pergunta por mim; possivelmente, a Margarida.
Quanto ao Gonçalo e ao João, o primeiro não o vejo há dias, também porque ainda não fui lá a casa visitar o quarto da Joana; o segundo está zangado comigo, porque pensava que queria ficar com ele. Tendo em conta que acabei com o Gonçalo por causa dele, não o censuro, mas a verdade é que achei que ele tinha percebido que não estou com cabeça para ficar com ninguém. Aliás, nem com paciência para ir para o centro estou, mas enfim. Só espero que a Guida não se lembre de questionar o Doutor sobre o que se passou no dia 24. Não estou com paciência. Além disso, sinto que foi um voto de confiança - ainda por cima, eu pensava que ele não gostava de mim. Vou rezar para que ninguém se tenha sentido injustiçado, já que a única que ficou a perder fui eu.
 

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