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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

14#

Perguntaram-me como é que a minha melhor amiga Joana faleceu. Nunca me tinha apercebido do quanto eu tentei enterrar essa história. Mas, a verdade é que está na hora de desvendar esse mistério. Não vale a pena esconder os fantasmas; eles voltam sempre para nos atormentar.
Um dia, não me lembro quando porque o tempo para mim morreu naquele terrível momento, estávamos as duas na casa dela, à espera do nosso grupo de amigos; no entanto, a Joana sempre foi um espírito indomável, sempre andou à procura de aventura, de histórias para contar, o que é irónico porque nunca chegou a poder contar esta. A história de como ela decidiu experimentar a mota do seu irmão, o meu namorado. Era uma Ducati em segunda ou terceira mão oferecida por um tio que vive no estrangeiro. Eu tentei chamá-la à razão, avisei-a de que se o Gonçalo a apanhasse ela estaria metida em sérios problemas, declarei que era uma estupidez, que ela não sabia mexer naquilo. Porém, a Joana, que sempre foi cabeça dura, nada ouviu. 
Já devem imaginar como terminou; vocês sabem como terminou. Eu sei como terminou, mas não vi como aconteceu. Só a vi a montar a mota e a desaparecer ao longo da rua. Lembro-me de ouvir um estrondo e de correr o mais depressa que pude. Então, deparei-me com a ducati toda amolgada, quase encaixada no capô do Fiat da mãe do Francisco, o namorado da Joana, que tinha assistido ao acidente, que tinha, inesperadamente, tomado parte activa naquela desgraça. Ele viu a namorada a chocar contra o carro onde ele estava, onde a mãe dele estava, e nenhum deles pode fazer nada, porque não conseguiram ver a Joana, que dobrou a esquina a alta velocidade. 
Não gosto de relembrar o que aconteceu a seguir. Não gosto de admitir que procurámos a Joana e fomos dar com ela atrás do carro, a mais de um metro, atrás do carro: o choque serviu -lhe como catapulta. Ela voou, literalmente, por cima do Fiat. As pessoas a rodearem-na. Ela ainda viva, a sofrer, múltiplas fracturas, um traumatismo craniano, hemorragias internas. Tentaram salvá-la, mas morreu durante a viagem para o hospital. Não estávamos à espera de outra coisa, mas doeu-nos na mesma, a mim e ao Francisco que fomos com ela. 
Quando os pais da Joana e o Gonçalo chegaram ao hospital já só foram lá para identificarem o corpo. Foi horrível. A mãe dela tentou negar, aquela não podia ser a sua filha, mas era, infelizmente não havia hipótese de ser outra qualquer. Foi um choque. Acho, agora que penso nisso, que me culparam de alguma maneira. Porque, afinal de contas, eu estava lá, eu podia tê-la impedido, mas desisti, achei que não havia maneira de a fazer mudar de ideias, desisti dela. Ainda me culpo. Decidi não a salvar; eu sabia que aquilo ia acontecer e desisti dela, percebem? 
Não há muito mais para contar. Depois disso, tudo se desmoronou. O nosso grupo de amigos foi caindo aos bocados. O meu namoro com o Gonçalo deteriou-se de tal maneira que acabámos por nos afastar. É verdade que já estamos bem, mas nada voltou ao normal, porque depois do acidente tudo deixou de ser normal. Talvez só estejamos juntos por causa da Joana. Talvez já nem sejamos realmente amigos. Só estamos a tentar manter a memória dela intacta, acho. 
segunda-feira, 20 de junho de 2011

6#

Acabámos. Eu e o Gonçalo acabámos. Mas pior que isso, é ele não me falar. Tive que lhe contar do João e, como já era de esperar, ele chamou-me todos os nomes possíveis e inimagináveis. Estávamos no quarto dele quando lhe contei. A primeira reacção dele foi levantar-se e atirar o candeeiro contra a parede do outro lado do quarto. A lâmpada estilhaçou-se em mil pedaços. Já foi há uns dias, mas ainda me lembro como se fosse ontem. Só gritava - na verdade, quase que me arrastou pelos cabelos para fora do quarto dele. Mas os pais ouviram a gritaria e subiram imediatamente. Só que ainda sinto a dor no casco da cabeça. A dor no peito ainda é pior - só de pensar no que aconteceu. Estou proibida de lá voltar, mesmo se for para visitar o quarto da Joana, este Verão. A mãe do Gonçalo contou-me que ele está demasiado perturbado, que talvez em Setembro já esteja tudo melhor. Mas não quero pensar mais nisso. Nem no João: já lhe disse que não me quero envolver com ninguém, preciso de estar sozinha, uns tempos - ele disse que espera.
Inscrevi-me para voluntariado num centro de animais para ver se ocupo a cabeça. A senhora que me atendeu, quando fui entregar a ficha de inscrição, é muito simpática. Até me disponibilizou um pouco do seu tempo para me mostrar as instalações. Também me disse que o Doutor Pedro é muito simpático e, que vai ajudar-me a realizar todas as tarefas. Na verdade, ela falou-me imenso do Doutor, mas penso que é mais novo que ela porque, de vez em quando, chamou-lhe menino. Provavelmente, tem uns vinte e tal anos. De qualquer maneira, só me apetece ir dormir. Vou enfiar-me dentro dos lençóis. Só saio de lá amanhã, para ir trabalhar. Espero que o Doutor não seja muito chato.
quinta-feira, 2 de junho de 2011

4#

Ninguém percebe que me estou a afundar. Que me estão a roubar as forças, porque deixaram de lutar em tudo o que acreditavam. Renunciaram aos seus sonhos, à verdade que apregoavam, à própria vida. Estão a matar-me, porque já não acreditam. 
Já não posso contar com ninguém. Permanece tudo num estado de vegetal. Se pudessem, deixavam de respirar. É uma afronta à memória da Joana pensarem em fazê-lo. Mas pensam - é isso que me dói, mais que a dor de a ter perdido, é o medo de os perder também: a Sara não fala com ninguém há dias - os pais estão cada vez mais preocupados, os professores não sabem o que lhe fazer -, o Francisco desmancha-se constantemente - os colegas fartam-se de gozar com ele, as notas baixaram e já nem os jogos de futebol o animam -, a Rita tem faltado às aulas - não a vejo há dias e começo a ficar mesmo preocupada, o Gonçalo está cada vez mais distante, mais fechado - não vou conseguir aguentar muito mais, porque a dor pesa o dobro quando estamos juntos. 
Preciso que acordem. Que gritem. Que vivam. Que, ao menos, me deixem viver, se já o desistiram de fazer. Porque eu acredito - não sei no quê, mas acredito. É isso que me está a manter viva, por isso não me matem as esperanças. Não destruam tudo aquilo que me ajudaram a construir.
domingo, 29 de maio de 2011

3#

Zanguei-me com o Gonçalo. Tivemos uma discussão enorme. Neste momento, não me apetece vê-lo à frente, mas a mãe dele convidou-me para ir jantar lá a casa. Não sei se vou conseguir. Não é só por ir jantar com os pais da Joana, mas porque o ambiente vai estar ainda mais estranho do que é suposto. A discussão entre mim e o Gonçalo foi demasiado acesa e não me parece que ele me vá desculpar. Exagerei ao dizer-lhe que ele estava a reagir mal com a morte da Joana. É óbvio que está a reagir mal: perdeu a irmã. Está a doer-lhe muito mais do que me dói a mim - sei que sim. Mas também estou a sofrer e preciso de falar com alguém. No entanto, ele recusa-se a falar sobre ela. Enterrou-a. Já a enterrou. A visita à campa da irmã foi a despedida. Ele não planeia voltar lá mais. É isso que me dói. É normal que ele retome a sua vida normal, aos poucos. Mas não precisa de a esquecer. Pode guardá-la na memória. Podia visitar a campa dela. Podia relembrar a Joana comigo. Ou então, ajudar-me a esquecê-la, tal como ele está a começar a fazer. Podia ajudar-me. Só que, neste momento, não consegue concentrar-se em mais nada, além da sua dor. Mas e a minha?
sexta-feira, 27 de maio de 2011

2#

Estive a falar com a Sara. Mas não consegui arrancar-lhe nada, nem uma lágrima. Por outro lado, o Francisco chorou na aula de Biologia. Não vi, porque não sou da mesma turma - foi a Rita que me contou. Só sei que houve imenso pessoal que se fartou de rir. Se a Joana estivesse aqui tinha-os calado a todos. De qualquer maneira, não está, mas o Gonçalo quer ir visitar a campa da irmã, mais tarde. É a primeira vez desde que a Joana morreu que ele a quer ir ver. Estou contente por ele, mas não tenho a certeza de já ter ultrapassado a sua morte. Quando falo sobre a Joana, ele mantém-se em silêncio e, apesar de fingir que me está a ouvir, sei que, nesses momentos, viaja para um sítio bem distante deste. O pior é que me custa estar perto dele, porque me relembra a irmã: os cabelos louros, os olhos azuis, o mesmo sorriso, os mesmos gestos, o mesmo grande coração. Não sei quanto mais tempo vou conseguir viver assim. Nem o facto do Verão estar a chegar me anima. Já passaram quase seis meses - continua a parecer que foi ontem. Estou esgotada. Só gostava que ela estivesse aqui, para sermos as inseparáveis outra vez. Marijuana e Nês, lembras-te? 
quinta-feira, 26 de maio de 2011

1#

Desde que a Joana morreu, que eu estou perdida - perdi-me nas semanas, nas horas, nos minutos, nos segundos, na vida: tudo se perde na vida. A Joana perdeu-se de mim. Mas ainda a relembro com o mesmo carinho: gosto de pensar no seu sorriso malandro, nas suas gargalhadas histéricas, no seu espírito aventureiro, o mesmo que a matou. Gosto de pensar que ela ainda está aqui, ao pé de mim e ao pé dos outros - temos todos tantas saudades; principalmente o Francisco, que foi o que sofreu mais, porque afinal perdeu a pessoa que ele mais amava no mundo. Até pensei que, um dia, iriam casar - nunca tinha visto amor tão grande. Mas já não resta nada, só desgraça. A Sara não fala com ninguém há meses. Só vai às aulas para não dar trabalho aos pais. Não sei se vou aguentar muito mais assim. Nem sequer consigo apreciar o tempo que passo com o Gonçalo. Por isso, estou a escrever, porque escrever é calar-me, é gritar sem ruído, é escrever porque ninguém me ouve. Hei-de continuar a escrever, na esperança que, talvez, a Joana me ouça. Eu ainda a ouço, lá bem no fundo do meu coração, a pedir desculpas por ter partido, mas Joana, não te posso desculpar. Abandonaste-me. Deixaste-me no meio de pessoas que não têm metade da força que tu tinhas. Agora, ando perdida, porque tu perdeste-te de mim. Só tenho uma certeza: quero encontrar-me. Não me negues isso. Um dia, talvez, te consiga perdoar. Até lá, só quero que saibas que sempre gostei muito de ti e que continuarei a sentir saudades, por mais dias que passem. Da tua Inês, com muito amor.

 

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