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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

13#

Andei ausente aqui dos blogues, como devem ter reparado. Por isso, tenho imensas novidades. Embora ainda não saiba como começar. Talvez pelo voluntariado: acabou mais depressa do que era previsto, porque a Margarida apanhou-me a beijar o Doutor no escritório. Basicamente, eu fiquei super envergonhada, mas não lhe fui dar explicações nenhumas: dispensei-me a mim própria. Dispensei o voluntariado e dispensei o Pedro por umas semanas, para pôr as ideias em ordem. Aproveitei assim para me aproximar mais do meu grupo de amigos, incluindo do Gonçalo, que já fala comigo. Não me dá grande conversa, mas reage bem, dentro dos possíveis. Também visitei o quarto da Joana, umas quinhentas vezes: de cada vez que lá fui, trouxe uma recordação, pelo que já tenho uma colecção de objectos e livros dela. 
Quanto a eventos de férias, como algumas pessoas sabem, também fui ao Super Bock Super Rock, que foi super curtido e inesquecível. O grupo era grande, doze ao todo, pelo que foi a loucura total. Mas vou guardar os pormenores para mim. Também houve muita praia, algumas festas de aniversário e escapadelas à casa do Pedro - eu disse que o dispensei durante umas semanas, mas não para sempre.
Falando do amor, então, basicamente, depois de organizar a minha cabecinha, fui ter uma conversa séria com o Pedro, porque ele é maior de idade e eu não, o que significa que a nossa relação tem de ser secreta: se os meus pais descobrem sou mandada para um colégio interno, além de que ele se mete em sérios problemas. Nem tudo é rosas, como é óbvio. Por isso, para sair com ele temos de sair da cidade ou ir às Amoreiras, que é onde, incrivelmente, há menos hipóteses de encontrar conhecidos meus. De qualquer maneira, fiz dezassete anos dia oito de Agosto e convidei-o a mesma, mas também convidei o pessoal do voluntariado e a Doutora Tânia, para não dar nas vistas. Isto é, ele foi, mas não foi como meu namorado. Mais tarde, dormi na casa dele (apesar de, supostamente, ter ficado a dormir na casa da Mariana, que é a única que sabe que eu namoro com ele) e ele ofereceu-me uma pulseira de prata com pendentes (ao princípio eram só três pendentes: um cão para simbolizar o voluntariado, um coração para o nosso amor e uma estrelinha, porque o Pedro diz que eu sou a dele, mas agora já tem mais uns cinco). 
A escola também já está a começar, isto é, também já estou em stress. Espero que o décimo primeiro não seja assim tão difícil. De qualquer maneira, agora tenho um explicador privado (o Pedro ofereceu-se para me tentar dar aulas, mas só tentar, que eu já consigo imaginar no que é que essas aulas vão dar). Bom, não sei que dizer mais, por isso, como estive ausente tanto tempo, dou-vos a oportunidade de me fazerem todas as perguntas que quiserem, sem pudor. Sobre tudo e mais alguma coisa: estão à vontade. 
quinta-feira, 21 de julho de 2011

12#

Eu acho que tenho qualquer coisa com o Doutor, isto é, com o Pedro, o que não é muito boa ideia, porque eu sou menor de idade e ele é meu patrão, pelo menos de momento. Mas não consigo resistir a passar tardes na casa dele, a comer as mais diversas porcarias, enquanto vemos filmes, falamos sobre nós e nos beijamos de vez em quando. É tão bom, mas parece tão errado.
segunda-feira, 4 de julho de 2011

11#

Acho que a minha vida está a dar uma volta de 360º. Já estou melhor com a Sara, com a Rita e com o Francisco. Bom, na verdade, nunca estive mal com o Francisco, mas afastámos-nos um pouco depois da morte da Joana. De qualquer maneira, quem mais me preocupada era a Sara, por causa da greve de fome e assim. Mais a Rita que parecia que tinha arranjado outro grupo de amigos - de certa forma, arranjou, mas não nos abandonou. Já estamos bem e, temos saído juntos, mas com a ausência do Gonçalo que se mantêm afastado de todos nós. De vez em quando, sei que fala com o Francisco, mas não passa disso. 
Adiante, o voluntariado tem-me ocupado a maior parte do tempo. Além disso, sinto-me feliz lá e é giro relacionar-me com todos eles, quer com os animais quer com os meus colegas e os doutores. Penso que a Filipa e o Lucas se estão a apaixonar - ficam muito bem juntos, pelo que eu estou a torcer por eles. Mas devia estar mais preocupada com a minha vida amorosa, se é que a tenho. Na verdade, dia 1 de Julho era para ter ido jantar com os meus colegas do voluntariado, mas tive outra ideia: uma ideia bastante estúpida, agora que penso nela, e para dizer a verdade. Fui a um restaurante chinês comprar comida para levar e, encaminhei-me para o prédio do Pedro, a rezar para que a porta de cá debaixo estivesse aberta: estava. Portanto, subi, com receio, desci ainda umas quantas vezes, mas acabei por lhe tocar à porta. Como é óbvio, ele ficou surpreendido por me ver, mas pediu-me logo para entrar - ele estava a ver filmes antigos, por isso fomos para a sala. Lá me perguntou o que estava ali a fazer e eu feita atrasada disse-lhe que pensei que ele pudesse ter fome. Claro que se riu, mas aceitou de bom grado a comida e a minha companhia. Não se passou nada, mas foi bom: o Pedro é muito simpático, divertido e descontraído. Gostei da noite passada; não saí de lá a horas decentes, mas também não quero pensar mais nisso. Além disso, o ambiente no voluntariado não tem estado muito estranho. Muito. Um pouco, ainda. Mas acho que ninguém reparou em nada.
quinta-feira, 23 de junho de 2011

7#

O Gonçalo têm-me ignorado. Não me fulmina com o olhar nem faz comentários pejorativos acerca de mim; aliás, a reacção dele quando alguém pergunta como vão as coisas comigo ou fala de mim - pelo menos, isto segundo os meus amigos - é mandar calar a pessoa em questão. Por um lado, agrada-me que ele não deixe que se formem rumores; por outro, custa-me ser tão ignorada. Custa-me tanto que ontem fui ter com ele e perguntei-lhe se estava zangado comigo - a resposta que me deu foi nada menos nada mais que o seguinte: "Não, Inês. Estou zangado comigo. Por te ter deixado escapar". Senti-me tão mal depois desta resposta, que fui a correr para a casa-de-banho chorar. A Mariana viu tudo e veio ter comigo - é ela que me tem apoiado nestes últimos dias. Na verdade, é a única amiga que tenho. Estou surpreendida, porque nunca pensei que ela me pudesse compreender tão bem. 
A Rita está em risco de chumbar, por causa das duas semanas que faltou às aulas. Mas já parece mais animada. É certo que ainda não falámos, mas tenho-a visto na rua com pessoal mais velho. Parece ter voltado à Rita que eu conhecia, embora essa Rita me quisesse sempre por perto. De qualquer maneira, estou mais preocupada com a Sara: está cada vez mais estranha. A mãe dele telefonou-me a pedir ajuda, porque ela já não come nada. Não sei quando é que vou ter paciência para lhe ir bater à porta, para lhe gritar, para a chamar à razão. Mas vou ter que o fazer brevemente. Além disso, o Francisco é quem mais precisa de ajuda neste momento - a Mariana diz que não se importa de ajudar, mas fá-lo cá com um sorriso que eu até tenho medo que ela se aproxime dele. 
O meu primeiro dia de trabalho foi o pior dia de sempre. Para começar, o Doutor tem vinte e cinco anos, olhos verdes, castanho-escuro, um rosto belíssimo e um corpo de invejar aos céus. Chama-se "Pedro Castro, trata-me por Pedro; deixa lá o Doutor para a Dona Maria". Imaginem a minha cara de parva perante o Doutor-Mais-Giro-Do-Mundo, que tem como apelido Castro. Pedro e Inês, com apelido Castro pelo meio não vos faz lembrar nada. Se não fosse todas as outras tragédias que a minha vida tem sofrido, eu até acharia esta coincidência tão, mas tão ridícula que até chega a parecer irreal. De qualquer maneira, a história de amor de Pedro e Inês acaba mesmo em tragédia. Mas, continuando a minha odisseia, o pior não foi isso, porque eu só fiz essa associação muito tempo depois e, apesar de ter reparado na beleza invulgar do Pedro, nem sequer liguei muito a isso - estava ali para trabalhar e para me abstrair das outras porcarias todas. Adiante, o pior foi quando eu descobri que não tenho talento nenhum para lidar com animais. Primeiro, eu juro que os cães daquele centro são demoníacos e que me odeiam, mesmo os mais pequenos. Fartaram-se de se atirarem para cima de mim, lamberem-me toda, ladrarem, puxarem as minhas calças de fato-treino e o meu cabelo. Quando estava a dar banho ao Caramelo, que é um shiuahua bege, com a ajuda do Doutor, o cão pôs-se aos pulos, eu perdi o controle do chuveiro, molhei-me toda (e ao Doutor também) e ainda despejei um frasco miniatura de champô no chão, em mim e no Doutor, que ficou todo encharcado. Melhor ainda, foi quando eu o tentei apanhar, enquanto pedia desculpas pela porcaria, e caí estatelada no chão. Resultado: fui dispensada; "Deixa lá, é o teu primeiro dia. Amanhã corre melhor. Se quiseres ir já, estás à vontade, Inês". Lá foi a Inês, toda amuada, para casa. Mas quem é que a Inês encontrou no alpendre da sua casa? O Gonçalo, que antes de eu conseguir sequer pensar, disse "Se quiseres ir lá a casa, ao quarto da Joana. Não te. Podes ir, Inês. Mas avisa-me antes, está bem? Não é nada. Quer dizer, é contigo. O que aconteceu ainda. Não estou preparado. Ver-te na escola já é castigo que chegue. Não leves a mal. Tenho de ir. Beijos. Fica bem". Pronto, ele disse isto de enxurrada, a gaguejar, com o olhar a vaguear de um lado para o outro, o pé a bater, as mãos nos bolsos. Não me deixou falar, mas deixou-me a pensar. É disso que eu preciso neste momento: de pensar. Porque o que ele me disse, tudo o que ele me disse depois de acabarmos, mexeu comigo. Pensava que estava minimamente preparada para o perder, mas enganei-me.
Não vou comentar o resto dos meus dias no centro de animais/clínica veterinária, porque, apesar de não terem sido o desastre que foi o primeiro dia, também não têm sido perfeitos. Além disso, a Dona Maria adora fazer-me elogios e, quando os faz à frente do Doutor, eu fico mais vermelha que um tomate, porque até agora só lhe mostrei que sou uma desastrada, uma distraída, uma cabeça no ar, enfim. Ainda estou à espera de ser dispensada do voluntariado. Se me estivessem a pagar, já estava no olho da rua. Mas são todos muito simpáticos. Até os meus colegas de voluntariado, principalmente o Lucas e a Filipa, que são uns curtidos. São todos uns queridos comigo e eu já sou, basicamente, a mascote do grupo. Já me chamam todos minorca ou pequenina. Menos o Doutor que ainda se mantêm formal, o que é normal, apesar de ser só comigo, porque à Filipa chama-lhe Fi e à Margarida chama-lhe Guida, e continuando por aí e além com os outros todos . Não sei se ele gosta lá muito de mim. Mas acha-me graça de certeza, porque cada vez que eu faço asneira ri-se baixinho e lá me manda um sorriso simpático. Provavelmente, acha que eu tenho a mania que sou palhaça. Enfim. Tem sido óptimo. É do voluntariado que eu me tenho lembrado, quando começo a deprimir, porque fico logo com um sorriso enorme na cara. Mas, neste momento, preciso mesmo de pensar. De descansar também, porque amanhã ainda vou ao centro de animais. Já só lá vou três horas, mas estou muito cansada mesmo. Aquilo esgota-me. Aquilo e a praia, tenho de admitir. Para piorar estou com um escaldão. Mas pronto, é bom, a praia, os poucos amigos que me restam, o centro, o pessoal do voluntariado. É bom.
domingo, 29 de maio de 2011

3#

Zanguei-me com o Gonçalo. Tivemos uma discussão enorme. Neste momento, não me apetece vê-lo à frente, mas a mãe dele convidou-me para ir jantar lá a casa. Não sei se vou conseguir. Não é só por ir jantar com os pais da Joana, mas porque o ambiente vai estar ainda mais estranho do que é suposto. A discussão entre mim e o Gonçalo foi demasiado acesa e não me parece que ele me vá desculpar. Exagerei ao dizer-lhe que ele estava a reagir mal com a morte da Joana. É óbvio que está a reagir mal: perdeu a irmã. Está a doer-lhe muito mais do que me dói a mim - sei que sim. Mas também estou a sofrer e preciso de falar com alguém. No entanto, ele recusa-se a falar sobre ela. Enterrou-a. Já a enterrou. A visita à campa da irmã foi a despedida. Ele não planeia voltar lá mais. É isso que me dói. É normal que ele retome a sua vida normal, aos poucos. Mas não precisa de a esquecer. Pode guardá-la na memória. Podia visitar a campa dela. Podia relembrar a Joana comigo. Ou então, ajudar-me a esquecê-la, tal como ele está a começar a fazer. Podia ajudar-me. Só que, neste momento, não consegue concentrar-se em mais nada, além da sua dor. Mas e a minha?
quinta-feira, 26 de maio de 2011

1#

Desde que a Joana morreu, que eu estou perdida - perdi-me nas semanas, nas horas, nos minutos, nos segundos, na vida: tudo se perde na vida. A Joana perdeu-se de mim. Mas ainda a relembro com o mesmo carinho: gosto de pensar no seu sorriso malandro, nas suas gargalhadas histéricas, no seu espírito aventureiro, o mesmo que a matou. Gosto de pensar que ela ainda está aqui, ao pé de mim e ao pé dos outros - temos todos tantas saudades; principalmente o Francisco, que foi o que sofreu mais, porque afinal perdeu a pessoa que ele mais amava no mundo. Até pensei que, um dia, iriam casar - nunca tinha visto amor tão grande. Mas já não resta nada, só desgraça. A Sara não fala com ninguém há meses. Só vai às aulas para não dar trabalho aos pais. Não sei se vou aguentar muito mais assim. Nem sequer consigo apreciar o tempo que passo com o Gonçalo. Por isso, estou a escrever, porque escrever é calar-me, é gritar sem ruído, é escrever porque ninguém me ouve. Hei-de continuar a escrever, na esperança que, talvez, a Joana me ouça. Eu ainda a ouço, lá bem no fundo do meu coração, a pedir desculpas por ter partido, mas Joana, não te posso desculpar. Abandonaste-me. Deixaste-me no meio de pessoas que não têm metade da força que tu tinhas. Agora, ando perdida, porque tu perdeste-te de mim. Só tenho uma certeza: quero encontrar-me. Não me negues isso. Um dia, talvez, te consiga perdoar. Até lá, só quero que saibas que sempre gostei muito de ti e que continuarei a sentir saudades, por mais dias que passem. Da tua Inês, com muito amor.

 

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