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sábado, 24 de setembro de 2011

17#

da minha vida. A relação com o Pedro anda tremida. Não podemos andar juntos na rua, houve uma ou duas excepções, mas ele diz que fomos irresponsáveis e que não pensa voltar a fazê-lo. Depois o meu pai anda desconfiado de que se passa alguma coisa comigo e, basicamente, o meu irmão mais velho está a começar a entrar em colapso e está prestes a denunciar-me. Depois o Gonçalo anda estranho comigo, se fosse antes diria que está normal, mas agora é só estranho. Está demasiado próximo, tenho medo que ele queira voltar para mim, porque ele não sabe que estou comprometida, e não quero explicar-lhe. Começo a entrar em stress, especialmente porque o Bernardo, o meu irmão mais novo, anda armado em parvo e passa o tempo todo a provocar-me. Estou a ficar maluca.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011

14#

Perguntaram-me como é que a minha melhor amiga Joana faleceu. Nunca me tinha apercebido do quanto eu tentei enterrar essa história. Mas, a verdade é que está na hora de desvendar esse mistério. Não vale a pena esconder os fantasmas; eles voltam sempre para nos atormentar.
Um dia, não me lembro quando porque o tempo para mim morreu naquele terrível momento, estávamos as duas na casa dela, à espera do nosso grupo de amigos; no entanto, a Joana sempre foi um espírito indomável, sempre andou à procura de aventura, de histórias para contar, o que é irónico porque nunca chegou a poder contar esta. A história de como ela decidiu experimentar a mota do seu irmão, o meu namorado. Era uma Ducati em segunda ou terceira mão oferecida por um tio que vive no estrangeiro. Eu tentei chamá-la à razão, avisei-a de que se o Gonçalo a apanhasse ela estaria metida em sérios problemas, declarei que era uma estupidez, que ela não sabia mexer naquilo. Porém, a Joana, que sempre foi cabeça dura, nada ouviu. 
Já devem imaginar como terminou; vocês sabem como terminou. Eu sei como terminou, mas não vi como aconteceu. Só a vi a montar a mota e a desaparecer ao longo da rua. Lembro-me de ouvir um estrondo e de correr o mais depressa que pude. Então, deparei-me com a ducati toda amolgada, quase encaixada no capô do Fiat da mãe do Francisco, o namorado da Joana, que tinha assistido ao acidente, que tinha, inesperadamente, tomado parte activa naquela desgraça. Ele viu a namorada a chocar contra o carro onde ele estava, onde a mãe dele estava, e nenhum deles pode fazer nada, porque não conseguiram ver a Joana, que dobrou a esquina a alta velocidade. 
Não gosto de relembrar o que aconteceu a seguir. Não gosto de admitir que procurámos a Joana e fomos dar com ela atrás do carro, a mais de um metro, atrás do carro: o choque serviu -lhe como catapulta. Ela voou, literalmente, por cima do Fiat. As pessoas a rodearem-na. Ela ainda viva, a sofrer, múltiplas fracturas, um traumatismo craniano, hemorragias internas. Tentaram salvá-la, mas morreu durante a viagem para o hospital. Não estávamos à espera de outra coisa, mas doeu-nos na mesma, a mim e ao Francisco que fomos com ela. 
Quando os pais da Joana e o Gonçalo chegaram ao hospital já só foram lá para identificarem o corpo. Foi horrível. A mãe dela tentou negar, aquela não podia ser a sua filha, mas era, infelizmente não havia hipótese de ser outra qualquer. Foi um choque. Acho, agora que penso nisso, que me culparam de alguma maneira. Porque, afinal de contas, eu estava lá, eu podia tê-la impedido, mas desisti, achei que não havia maneira de a fazer mudar de ideias, desisti dela. Ainda me culpo. Decidi não a salvar; eu sabia que aquilo ia acontecer e desisti dela, percebem? 
Não há muito mais para contar. Depois disso, tudo se desmoronou. O nosso grupo de amigos foi caindo aos bocados. O meu namoro com o Gonçalo deteriou-se de tal maneira que acabámos por nos afastar. É verdade que já estamos bem, mas nada voltou ao normal, porque depois do acidente tudo deixou de ser normal. Talvez só estejamos juntos por causa da Joana. Talvez já nem sejamos realmente amigos. Só estamos a tentar manter a memória dela intacta, acho. 
sexta-feira, 2 de setembro de 2011

13#

Andei ausente aqui dos blogues, como devem ter reparado. Por isso, tenho imensas novidades. Embora ainda não saiba como começar. Talvez pelo voluntariado: acabou mais depressa do que era previsto, porque a Margarida apanhou-me a beijar o Doutor no escritório. Basicamente, eu fiquei super envergonhada, mas não lhe fui dar explicações nenhumas: dispensei-me a mim própria. Dispensei o voluntariado e dispensei o Pedro por umas semanas, para pôr as ideias em ordem. Aproveitei assim para me aproximar mais do meu grupo de amigos, incluindo do Gonçalo, que já fala comigo. Não me dá grande conversa, mas reage bem, dentro dos possíveis. Também visitei o quarto da Joana, umas quinhentas vezes: de cada vez que lá fui, trouxe uma recordação, pelo que já tenho uma colecção de objectos e livros dela. 
Quanto a eventos de férias, como algumas pessoas sabem, também fui ao Super Bock Super Rock, que foi super curtido e inesquecível. O grupo era grande, doze ao todo, pelo que foi a loucura total. Mas vou guardar os pormenores para mim. Também houve muita praia, algumas festas de aniversário e escapadelas à casa do Pedro - eu disse que o dispensei durante umas semanas, mas não para sempre.
Falando do amor, então, basicamente, depois de organizar a minha cabecinha, fui ter uma conversa séria com o Pedro, porque ele é maior de idade e eu não, o que significa que a nossa relação tem de ser secreta: se os meus pais descobrem sou mandada para um colégio interno, além de que ele se mete em sérios problemas. Nem tudo é rosas, como é óbvio. Por isso, para sair com ele temos de sair da cidade ou ir às Amoreiras, que é onde, incrivelmente, há menos hipóteses de encontrar conhecidos meus. De qualquer maneira, fiz dezassete anos dia oito de Agosto e convidei-o a mesma, mas também convidei o pessoal do voluntariado e a Doutora Tânia, para não dar nas vistas. Isto é, ele foi, mas não foi como meu namorado. Mais tarde, dormi na casa dele (apesar de, supostamente, ter ficado a dormir na casa da Mariana, que é a única que sabe que eu namoro com ele) e ele ofereceu-me uma pulseira de prata com pendentes (ao princípio eram só três pendentes: um cão para simbolizar o voluntariado, um coração para o nosso amor e uma estrelinha, porque o Pedro diz que eu sou a dele, mas agora já tem mais uns cinco). 
A escola também já está a começar, isto é, também já estou em stress. Espero que o décimo primeiro não seja assim tão difícil. De qualquer maneira, agora tenho um explicador privado (o Pedro ofereceu-se para me tentar dar aulas, mas só tentar, que eu já consigo imaginar no que é que essas aulas vão dar). Bom, não sei que dizer mais, por isso, como estive ausente tanto tempo, dou-vos a oportunidade de me fazerem todas as perguntas que quiserem, sem pudor. Sobre tudo e mais alguma coisa: estão à vontade. 
segunda-feira, 4 de julho de 2011

11#

Acho que a minha vida está a dar uma volta de 360º. Já estou melhor com a Sara, com a Rita e com o Francisco. Bom, na verdade, nunca estive mal com o Francisco, mas afastámos-nos um pouco depois da morte da Joana. De qualquer maneira, quem mais me preocupada era a Sara, por causa da greve de fome e assim. Mais a Rita que parecia que tinha arranjado outro grupo de amigos - de certa forma, arranjou, mas não nos abandonou. Já estamos bem e, temos saído juntos, mas com a ausência do Gonçalo que se mantêm afastado de todos nós. De vez em quando, sei que fala com o Francisco, mas não passa disso. 
Adiante, o voluntariado tem-me ocupado a maior parte do tempo. Além disso, sinto-me feliz lá e é giro relacionar-me com todos eles, quer com os animais quer com os meus colegas e os doutores. Penso que a Filipa e o Lucas se estão a apaixonar - ficam muito bem juntos, pelo que eu estou a torcer por eles. Mas devia estar mais preocupada com a minha vida amorosa, se é que a tenho. Na verdade, dia 1 de Julho era para ter ido jantar com os meus colegas do voluntariado, mas tive outra ideia: uma ideia bastante estúpida, agora que penso nela, e para dizer a verdade. Fui a um restaurante chinês comprar comida para levar e, encaminhei-me para o prédio do Pedro, a rezar para que a porta de cá debaixo estivesse aberta: estava. Portanto, subi, com receio, desci ainda umas quantas vezes, mas acabei por lhe tocar à porta. Como é óbvio, ele ficou surpreendido por me ver, mas pediu-me logo para entrar - ele estava a ver filmes antigos, por isso fomos para a sala. Lá me perguntou o que estava ali a fazer e eu feita atrasada disse-lhe que pensei que ele pudesse ter fome. Claro que se riu, mas aceitou de bom grado a comida e a minha companhia. Não se passou nada, mas foi bom: o Pedro é muito simpático, divertido e descontraído. Gostei da noite passada; não saí de lá a horas decentes, mas também não quero pensar mais nisso. Além disso, o ambiente no voluntariado não tem estado muito estranho. Muito. Um pouco, ainda. Mas acho que ninguém reparou em nada.
segunda-feira, 27 de junho de 2011

9#

Ela entrou no centro de animais, com o cabelo atado, deixando os caracóis castanhos-escuros caírem sobre os seus ombros nus; os olhares dirigiram-se para ela, saudando-a. 
- O Pedro quer falar contigo. - Declarou Tânia, ao passar por ela.
Inês suspirou, desiludida; tinha esperança que a Margarida não fosse questionar as decisões do Doutor. De qualquer maneira, ela não se queixara - não a podiam acusar de se ter andado a lamuriar pelos cantos acerca das tarefas do dia vinte e quatro. 
Bateu à porta, receosa. Mas ninguém respondeu, pelo que decidiu entrar, devagarinho; o Doutor estava embrenhado nos seus papéis, mas assim que se apercebeu duma segunda presença no seu escritório, levantou o olhar, encarando-a, com uma expressão neutra.
- Podes sentar-te. - Disse ele, fazendo sinal para Inês se aproximar.
Ela avançou, hesitante, a pensar no que haveria de dizer. No entanto, assim que se sentou, ao encarar o Doutor perdeu toda a coragem.
- Inês, não me aproveitei de ti, pois não? - Perguntou, referindo-se ao dia vinte e quatro.
- Não, Doutor. Acho que - parou para escolher as palavras certas - foi um voto de confiança. Só não percebo por que é que me escolheu a mim, quando sabia que eu só vinha fazer três horas. - Acrescentou.
O Doutor encarou-a sério; no entanto, rapidamente se formou um sorriso tímido no seu rosto. Afagou os cabelos embaraçado, antes de lhe contar a verdade.
- Queria que soubesses onde me encontrar. - Murmurou, baixando o olhar.
Inês não foi capaz de lhe responder; engoliu em seco, envergonhada. Não conseguia acreditar no que tinha acabado de acontecer. De qualquer maneira, o Doutor não deixou passar muito tempo - aquele silêncio era demasiado constrangedor.
- Peço desculpa, Doutor. Talvez eu lhe tenha dado a entender - não acabou a frase por saber que não tinha feito nada de mal. - É melhor fingirmos que esta conversa nunca existiu.
- Ou podemos agir como dois adultos. - Sugeriu o Doutor, sentando-se na secretária. -  E acabar a conversa.
- Mas não somos dois adultos. - Contrapôs Inês, enrubescendo.
O Doutor corou, envergonhado, afastando-se dela e, escondendo-se atrás da secretária, novamente; tossiu para clarear a voz, antes de prosseguir, arrependido.
- Desculpa, Inês. - Pediu, sincero. - Não sei onde estava com a cabeça. Tens toda a razão. Perdoa-me, está bem?
- Posso fazer uma pausa?
- Claro. Demora o tempo que quiseres. - Assentiu o Doutor.
Inês saiu do escritório num ápice, com as faces rosadas e, o coração a palpitar freneticamente; sentia-se quente por debaixo do fato-de-treino. Pegou na sua mala, com o intuito de ir ao café.
- Onde vais, Inês? - Perguntou Lucas, atravessando-se no seu caminho.
- Comprar cigarros. - Respondeu, impaciente.
- Espera. - Pediu Lucas, dirigindo-se até à sua mochila. 
- Vens comigo?
- Não. Mas compra-me um Marlboro. - Lucas entregou-lhe o dinheiro.
- Está bem. - Retorquiu Inês, assentindo com a cabeça. - Não demoro muito.
- Estás em pausa? - Questionou Guida, com um esgar.
- Já volto. - Repetiu Inês, antes de sair.

8#

Não tenho falado com nenhum dos meus amigos - se é que ainda o são - sem ser com a Mariana e o pessoal do voluntariado. Por falar em voluntariado, o dia 24, em que só fui fazer três horas foi bastante estranho. Primeiro, o Doutor não foi, por isso ficámos por nossa conta, embora lá estivesse a Tânia, que é quem comanda as tropas quando o Doutor não está lá. Supostamente, o Pedro, como toda a gente lhe chama - menos eu - foi a Barcelona tratar de negócios. Deve voltar hoje, pelo que eu daqui a uma hora já o vou ver. Mas voltando ao dia 24, apesar do Doutor não lá estar, deixou um papel para mim com as tarefas que queria que eu desempenhasse, o que foi deveras estranho - coisa que as minhas colegas comentaram, infelizmente. Então, fiquei encarregue da limpeza do Sergey, um pastor alemão enorme, mas suficientemente sossegado para eu não fazer a mesma asneira que fiz com o Caramelo. Tive ainda que organizar uns papéis, pelo que estive dentro do escritório dele. Bem, devo dizer que aquilo é um luxo, mas que o Doutor não é nada organizado. Para finalizar, porque, supostamente, só lá devia ter ficado três horas, tive que esperar por umas encomendas para o Doutor e tive que as deixar com a vizinha dele, pelo que me foi dado a morada do Doutor: vive num apartamento. Não entrei lá dentro, como é óbvio. Deixei as encomendas com a vizinha: uma senhora odiosa, que me fez um interrogatório de quase meia hora. Perguntou-me se eu era irmã do Doutor ou filha, mas eu disse-lhe que não e que também não tinha idade para ser filha dele - bem, não queiram saber a cara que a mulher me fez. Bom, foi uma hora e meia a mais que fiz. Não me vou queixar ao Doutor, mas não percebi por que é que ele não pediu a outra pessoa para fazer de assistente pessoal dele, tendo em conta que sabia que eu só ia fazer três horas naquele dia. De qualquer maneira, qualquer pessoa vai fazer a pergunta por mim; possivelmente, a Margarida.
Quanto ao Gonçalo e ao João, o primeiro não o vejo há dias, também porque ainda não fui lá a casa visitar o quarto da Joana; o segundo está zangado comigo, porque pensava que queria ficar com ele. Tendo em conta que acabei com o Gonçalo por causa dele, não o censuro, mas a verdade é que achei que ele tinha percebido que não estou com cabeça para ficar com ninguém. Aliás, nem com paciência para ir para o centro estou, mas enfim. Só espero que a Guida não se lembre de questionar o Doutor sobre o que se passou no dia 24. Não estou com paciência. Além disso, sinto que foi um voto de confiança - ainda por cima, eu pensava que ele não gostava de mim. Vou rezar para que ninguém se tenha sentido injustiçado, já que a única que ficou a perder fui eu.
quinta-feira, 23 de junho de 2011

7#

O Gonçalo têm-me ignorado. Não me fulmina com o olhar nem faz comentários pejorativos acerca de mim; aliás, a reacção dele quando alguém pergunta como vão as coisas comigo ou fala de mim - pelo menos, isto segundo os meus amigos - é mandar calar a pessoa em questão. Por um lado, agrada-me que ele não deixe que se formem rumores; por outro, custa-me ser tão ignorada. Custa-me tanto que ontem fui ter com ele e perguntei-lhe se estava zangado comigo - a resposta que me deu foi nada menos nada mais que o seguinte: "Não, Inês. Estou zangado comigo. Por te ter deixado escapar". Senti-me tão mal depois desta resposta, que fui a correr para a casa-de-banho chorar. A Mariana viu tudo e veio ter comigo - é ela que me tem apoiado nestes últimos dias. Na verdade, é a única amiga que tenho. Estou surpreendida, porque nunca pensei que ela me pudesse compreender tão bem. 
A Rita está em risco de chumbar, por causa das duas semanas que faltou às aulas. Mas já parece mais animada. É certo que ainda não falámos, mas tenho-a visto na rua com pessoal mais velho. Parece ter voltado à Rita que eu conhecia, embora essa Rita me quisesse sempre por perto. De qualquer maneira, estou mais preocupada com a Sara: está cada vez mais estranha. A mãe dele telefonou-me a pedir ajuda, porque ela já não come nada. Não sei quando é que vou ter paciência para lhe ir bater à porta, para lhe gritar, para a chamar à razão. Mas vou ter que o fazer brevemente. Além disso, o Francisco é quem mais precisa de ajuda neste momento - a Mariana diz que não se importa de ajudar, mas fá-lo cá com um sorriso que eu até tenho medo que ela se aproxime dele. 
O meu primeiro dia de trabalho foi o pior dia de sempre. Para começar, o Doutor tem vinte e cinco anos, olhos verdes, castanho-escuro, um rosto belíssimo e um corpo de invejar aos céus. Chama-se "Pedro Castro, trata-me por Pedro; deixa lá o Doutor para a Dona Maria". Imaginem a minha cara de parva perante o Doutor-Mais-Giro-Do-Mundo, que tem como apelido Castro. Pedro e Inês, com apelido Castro pelo meio não vos faz lembrar nada. Se não fosse todas as outras tragédias que a minha vida tem sofrido, eu até acharia esta coincidência tão, mas tão ridícula que até chega a parecer irreal. De qualquer maneira, a história de amor de Pedro e Inês acaba mesmo em tragédia. Mas, continuando a minha odisseia, o pior não foi isso, porque eu só fiz essa associação muito tempo depois e, apesar de ter reparado na beleza invulgar do Pedro, nem sequer liguei muito a isso - estava ali para trabalhar e para me abstrair das outras porcarias todas. Adiante, o pior foi quando eu descobri que não tenho talento nenhum para lidar com animais. Primeiro, eu juro que os cães daquele centro são demoníacos e que me odeiam, mesmo os mais pequenos. Fartaram-se de se atirarem para cima de mim, lamberem-me toda, ladrarem, puxarem as minhas calças de fato-treino e o meu cabelo. Quando estava a dar banho ao Caramelo, que é um shiuahua bege, com a ajuda do Doutor, o cão pôs-se aos pulos, eu perdi o controle do chuveiro, molhei-me toda (e ao Doutor também) e ainda despejei um frasco miniatura de champô no chão, em mim e no Doutor, que ficou todo encharcado. Melhor ainda, foi quando eu o tentei apanhar, enquanto pedia desculpas pela porcaria, e caí estatelada no chão. Resultado: fui dispensada; "Deixa lá, é o teu primeiro dia. Amanhã corre melhor. Se quiseres ir já, estás à vontade, Inês". Lá foi a Inês, toda amuada, para casa. Mas quem é que a Inês encontrou no alpendre da sua casa? O Gonçalo, que antes de eu conseguir sequer pensar, disse "Se quiseres ir lá a casa, ao quarto da Joana. Não te. Podes ir, Inês. Mas avisa-me antes, está bem? Não é nada. Quer dizer, é contigo. O que aconteceu ainda. Não estou preparado. Ver-te na escola já é castigo que chegue. Não leves a mal. Tenho de ir. Beijos. Fica bem". Pronto, ele disse isto de enxurrada, a gaguejar, com o olhar a vaguear de um lado para o outro, o pé a bater, as mãos nos bolsos. Não me deixou falar, mas deixou-me a pensar. É disso que eu preciso neste momento: de pensar. Porque o que ele me disse, tudo o que ele me disse depois de acabarmos, mexeu comigo. Pensava que estava minimamente preparada para o perder, mas enganei-me.
Não vou comentar o resto dos meus dias no centro de animais/clínica veterinária, porque, apesar de não terem sido o desastre que foi o primeiro dia, também não têm sido perfeitos. Além disso, a Dona Maria adora fazer-me elogios e, quando os faz à frente do Doutor, eu fico mais vermelha que um tomate, porque até agora só lhe mostrei que sou uma desastrada, uma distraída, uma cabeça no ar, enfim. Ainda estou à espera de ser dispensada do voluntariado. Se me estivessem a pagar, já estava no olho da rua. Mas são todos muito simpáticos. Até os meus colegas de voluntariado, principalmente o Lucas e a Filipa, que são uns curtidos. São todos uns queridos comigo e eu já sou, basicamente, a mascote do grupo. Já me chamam todos minorca ou pequenina. Menos o Doutor que ainda se mantêm formal, o que é normal, apesar de ser só comigo, porque à Filipa chama-lhe Fi e à Margarida chama-lhe Guida, e continuando por aí e além com os outros todos . Não sei se ele gosta lá muito de mim. Mas acha-me graça de certeza, porque cada vez que eu faço asneira ri-se baixinho e lá me manda um sorriso simpático. Provavelmente, acha que eu tenho a mania que sou palhaça. Enfim. Tem sido óptimo. É do voluntariado que eu me tenho lembrado, quando começo a deprimir, porque fico logo com um sorriso enorme na cara. Mas, neste momento, preciso mesmo de pensar. De descansar também, porque amanhã ainda vou ao centro de animais. Já só lá vou três horas, mas estou muito cansada mesmo. Aquilo esgota-me. Aquilo e a praia, tenho de admitir. Para piorar estou com um escaldão. Mas pronto, é bom, a praia, os poucos amigos que me restam, o centro, o pessoal do voluntariado. É bom.
segunda-feira, 20 de junho de 2011

6#

Acabámos. Eu e o Gonçalo acabámos. Mas pior que isso, é ele não me falar. Tive que lhe contar do João e, como já era de esperar, ele chamou-me todos os nomes possíveis e inimagináveis. Estávamos no quarto dele quando lhe contei. A primeira reacção dele foi levantar-se e atirar o candeeiro contra a parede do outro lado do quarto. A lâmpada estilhaçou-se em mil pedaços. Já foi há uns dias, mas ainda me lembro como se fosse ontem. Só gritava - na verdade, quase que me arrastou pelos cabelos para fora do quarto dele. Mas os pais ouviram a gritaria e subiram imediatamente. Só que ainda sinto a dor no casco da cabeça. A dor no peito ainda é pior - só de pensar no que aconteceu. Estou proibida de lá voltar, mesmo se for para visitar o quarto da Joana, este Verão. A mãe do Gonçalo contou-me que ele está demasiado perturbado, que talvez em Setembro já esteja tudo melhor. Mas não quero pensar mais nisso. Nem no João: já lhe disse que não me quero envolver com ninguém, preciso de estar sozinha, uns tempos - ele disse que espera.
Inscrevi-me para voluntariado num centro de animais para ver se ocupo a cabeça. A senhora que me atendeu, quando fui entregar a ficha de inscrição, é muito simpática. Até me disponibilizou um pouco do seu tempo para me mostrar as instalações. Também me disse que o Doutor Pedro é muito simpático e, que vai ajudar-me a realizar todas as tarefas. Na verdade, ela falou-me imenso do Doutor, mas penso que é mais novo que ela porque, de vez em quando, chamou-lhe menino. Provavelmente, tem uns vinte e tal anos. De qualquer maneira, só me apetece ir dormir. Vou enfiar-me dentro dos lençóis. Só saio de lá amanhã, para ir trabalhar. Espero que o Doutor não seja muito chato.
sexta-feira, 10 de junho de 2011

5#

Não sei o que se passa. Estou cada vez mais perdida. Apesar de me ter afastado de toda a dor. De me ter afastado deles por uns dias. Apesar do dia de praia ainda estar bem gravado na minha memória: as gargalhadas, os mergulhos, as amonas. O João. Mas devia ser o Gonçalo - sei-o e tenho vergonha do que aconteceu. Só não consigo deixar de sorrir ao pensar nisso milhares de vezes por dia. Além disso, ele não me pergunta porque é que mal lhe falo. Acho que ainda não deu pela minha ausência. No entanto, sei que não posso adiar isto muito mais. Tenho de lhe contar - não pretendo omitir, mas tenho um certo receio da sua reacção. Não posso contar isto a ninguém, pelo menos, não posso contá-lo nem à Sara nem à Rita, que são as únicas pessoas a quem desejo contar. Não tenho coragem de ir falar com a Mariana. Nunca fomos tão próximas. Ela não vai entender a dor porque estou a passar. Nem a do Gonçalo. Nem por que é que o João apareceu na altura errada. Mesmo assim, continuo a perguntar-me por que é que pareceu tão certo. Por que é que o quero repetir. Sou tão má. Começo a odiar-me a mim, também.
quinta-feira, 2 de junho de 2011

4#

Ninguém percebe que me estou a afundar. Que me estão a roubar as forças, porque deixaram de lutar em tudo o que acreditavam. Renunciaram aos seus sonhos, à verdade que apregoavam, à própria vida. Estão a matar-me, porque já não acreditam. 
Já não posso contar com ninguém. Permanece tudo num estado de vegetal. Se pudessem, deixavam de respirar. É uma afronta à memória da Joana pensarem em fazê-lo. Mas pensam - é isso que me dói, mais que a dor de a ter perdido, é o medo de os perder também: a Sara não fala com ninguém há dias - os pais estão cada vez mais preocupados, os professores não sabem o que lhe fazer -, o Francisco desmancha-se constantemente - os colegas fartam-se de gozar com ele, as notas baixaram e já nem os jogos de futebol o animam -, a Rita tem faltado às aulas - não a vejo há dias e começo a ficar mesmo preocupada, o Gonçalo está cada vez mais distante, mais fechado - não vou conseguir aguentar muito mais, porque a dor pesa o dobro quando estamos juntos. 
Preciso que acordem. Que gritem. Que vivam. Que, ao menos, me deixem viver, se já o desistiram de fazer. Porque eu acredito - não sei no quê, mas acredito. É isso que me está a manter viva, por isso não me matem as esperanças. Não destruam tudo aquilo que me ajudaram a construir.
sexta-feira, 27 de maio de 2011

2#

Estive a falar com a Sara. Mas não consegui arrancar-lhe nada, nem uma lágrima. Por outro lado, o Francisco chorou na aula de Biologia. Não vi, porque não sou da mesma turma - foi a Rita que me contou. Só sei que houve imenso pessoal que se fartou de rir. Se a Joana estivesse aqui tinha-os calado a todos. De qualquer maneira, não está, mas o Gonçalo quer ir visitar a campa da irmã, mais tarde. É a primeira vez desde que a Joana morreu que ele a quer ir ver. Estou contente por ele, mas não tenho a certeza de já ter ultrapassado a sua morte. Quando falo sobre a Joana, ele mantém-se em silêncio e, apesar de fingir que me está a ouvir, sei que, nesses momentos, viaja para um sítio bem distante deste. O pior é que me custa estar perto dele, porque me relembra a irmã: os cabelos louros, os olhos azuis, o mesmo sorriso, os mesmos gestos, o mesmo grande coração. Não sei quanto mais tempo vou conseguir viver assim. Nem o facto do Verão estar a chegar me anima. Já passaram quase seis meses - continua a parecer que foi ontem. Estou esgotada. Só gostava que ela estivesse aqui, para sermos as inseparáveis outra vez. Marijuana e Nês, lembras-te? 
quinta-feira, 26 de maio de 2011

1#

Desde que a Joana morreu, que eu estou perdida - perdi-me nas semanas, nas horas, nos minutos, nos segundos, na vida: tudo se perde na vida. A Joana perdeu-se de mim. Mas ainda a relembro com o mesmo carinho: gosto de pensar no seu sorriso malandro, nas suas gargalhadas histéricas, no seu espírito aventureiro, o mesmo que a matou. Gosto de pensar que ela ainda está aqui, ao pé de mim e ao pé dos outros - temos todos tantas saudades; principalmente o Francisco, que foi o que sofreu mais, porque afinal perdeu a pessoa que ele mais amava no mundo. Até pensei que, um dia, iriam casar - nunca tinha visto amor tão grande. Mas já não resta nada, só desgraça. A Sara não fala com ninguém há meses. Só vai às aulas para não dar trabalho aos pais. Não sei se vou aguentar muito mais assim. Nem sequer consigo apreciar o tempo que passo com o Gonçalo. Por isso, estou a escrever, porque escrever é calar-me, é gritar sem ruído, é escrever porque ninguém me ouve. Hei-de continuar a escrever, na esperança que, talvez, a Joana me ouça. Eu ainda a ouço, lá bem no fundo do meu coração, a pedir desculpas por ter partido, mas Joana, não te posso desculpar. Abandonaste-me. Deixaste-me no meio de pessoas que não têm metade da força que tu tinhas. Agora, ando perdida, porque tu perdeste-te de mim. Só tenho uma certeza: quero encontrar-me. Não me negues isso. Um dia, talvez, te consiga perdoar. Até lá, só quero que saibas que sempre gostei muito de ti e que continuarei a sentir saudades, por mais dias que passem. Da tua Inês, com muito amor.

 

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